Formigão, picape brasileira que está 43 anos à frente da Tesla Cybertruck

Relembre o teste original de outubro de 1978: "Uma picape de linhas pouco convencionais que impressiona pelo conforto e resistência"
(Arte/Quatro Rodas)

A picape Tesla Cybertruck só deve chegar ao mercado em 2021, mas foi apresentada nesta sexta-feira (22) e gerou polêmica pelo visual futurista.

Só que as linhas retilíneas – que renderam comentários negativos dos nossos leitores – parecem ter inspiração no passado: o Renha Formigão, modelo nacional dos anos 1970.

Por isso recuperamos a avaliação a seguir, de outubro de 1978, para mostrar que o pretenso futurismo da Cybertruck já era antecipado pela nossa Formigão 43 anos atrás.

Confira a avaliação do Renha Formigão na íntegra:
(Acervo/Quatro Rodas)

O mercado automobilístico brasileiro absorve um número cada vez maior de veículos utilitários adaptados dos modelos originais. É o caso, por exemplo, da picape Formigão, fabricada pela Renha Indústria e Comércio de Veículos Ltda., do Rio de Janeiro.

Com exclusividade, QUATRO RODAS dirigiu o Formigão antes de seu lançamento no mercado.

O carro
(Acervo/Quatro Rodas)

O novo utilitário, que tem carroceria de fibra de vidro montada sobre um chassis VW 1600, apresenta características quase de automóvel: bom conforto, excelente estabilidade, consumo satisfatório e razoável capacidade de carga. E por ter um design completamente diferente dos demais carros brasileiros, provocou sempre muita curiosidade nos locais por onde passou.

Isso porque, visto de frente, com suas linhas retilíneas, o Formigão chega a lembrar alguns dos recentes carros elétricos europeus. Apesar disso, o próprio construtor, Paulo Sérgio Renha, faz questão de afirmar que não se inspirou em outros veículos quando desenhou o Formigão.

Externamente, o Formigão é bastante simples, sem muitos pontos destacáveis. Tem um desenho sóbrio e somente os dois parachoques chamam a atenção, pretos, em fibra de vidro e embutidos na carroceria.

O dianteiro é uma peça inteiriça que encaixa os faróis (de Fiat) e as lanternas e apresenta estrias no centro, assemelhando-se a uma grade dianteira. Um pouco acima fica a tampa do porta-malas, que é pequeno e ainda divide espaço com o tanque de gasolina (o mesmo do VW 1300, com capacidade para 40 litros).

Assim, como ocorre com o novo VW, a tampa do tanque é externa, sem chave, e fica no lado direito, um pouco adiante da porta, embutida na carroceria. A parte da frente é completada por quatro entradas de ar (duas de cada lado), situadas entre a tampa do porta-malas e o para-brisa.

A picape Formigão não tem frisos laterais ou detalhes destacáveis nos lados, mas as maçanetas das portas são semelhantes às do Puma, com um bom encaixe para a mão.

Acima do parachoques traseiro – que tem uma concavidade para a placa e o encaixe das lanternas, de Variant -, há uma abertura na traseira da caçamba, em cuja tampa está gravado – em letras grandes – o nome do veículo.

A caçamba
(Acervo/Quatro Rodas)

A caçamba é bem construída e o espaço reservado para carga é de 724 litros, incluídos os espaços perdidos pelas coberturas desniveladas sobre as rodas e sobre o motor.

A tampa deste é facilmente removível, embora seja um pouco alta, já que o motor é de Kombi. Se fosse de Variant, por exemplo, que é plano, daria para nivelar completamente o fundo da caçamba.

Mas, segundo o fabricante, como a Volkswagen não fornece motores planos, eles teriam que ser comprados num revendedor, acarretando aumento considerável no preço geral.

Desse modo, o motor plano passa a ser opcional, no Formigão, bastando o cliente requisitá-lo no pedido de compra.

O modelo cedido pela fábrica para esta reportagem foi o Luxo, mais sofisticado que a versão básica. Tem rodas de ligas de antálio, com aros de 13 polegadas e talas de 6 polegadas na frente e 7 atrás, além de pneus radiais 175/70 SR 13 na frente e 185/70 SR 13 atrás.

O conta-giros completa os equipamentos do modelo, que custa Cr$ 134.078,00. A versão básica, e com rodas de aço estampado, aro de 14 polegadas e tala de 6 polegadas com pneus 5,90 x 14, custa Cr$ 123.200.

Para ambas as versões existem mais quatro opcionais: a lona para cobrir a caçamba (Cr$ 2.000), o engate para trailer (Cr$ 1.500), o estrado de madeira que forra a caçamba (Cr$ 2.100) e o motor plano, que deixa a caçamba nivelada no seu fundo. Este último opcional traz um acréscimo de Cr$ 7.000 ao valor total do carro.

O interior
(Acervo/Quatro Rodas)

O painel do Formigão é em fibra de vidro pintada na cor preta. A parte mais visível fica exatamente à frente do motorista, com o marcador de gasolina à esquerda, o velocímetro ao centro e, à direita, um local reservado para o encaixe de outros instrumentos.

Ainda nessa parte, mais à direita, há espaço para rádio e toca-fitas.

No canto esquerdo do painel, onde há um ligeiro recuo, fica o botão que abre a tampa do porta-malas. Um pouco mais à direita está o botão do farol e do lado direito do painel há um amplo porta-luvas sem tampa.

Há ainda mais um local para guardar pequenos objetos, acima do painel, junto às entradas de ar.

Um volante esportivo e bancos de couro, reclináveis, dão aspecto atraente ao Formigão, que entre os itens de segurança está equipado com cintos de segurança de três pontos e um extintor de incêndio bem localizado, embutido na parte inferior da porta do motorista.

Atrás dos bancos há também um pequeno espaço para colocar objetos, e bem embaixo, quase junto ao chão, há um vão, com tampa, que se estende sob a caçamba. Em seu interior encontram-se a bateria, do lado direito, e o estepe e as ferramentas do lado esquerdo.

Pela dificuldade de se retirar o estepe ou abastecer a bateria – os bancos precisam ser puxados à frente – este é um dos pontos negativos do Formigão.

O motor e o desempenho
(Acervo/Quatro Rodas)

A picape Formigão tem motor de Kombi, de 1.584 cm3 de cilindrada, de quatro cilindros, refrigerado a ar, com 7,2:1 de taxa de compressão e que utiliza gasolina comum.

Sua potência máxima é de 58 cv (42,7 kW) e o torque é de 11,2 mkgf (109,8 Nm) SAE, com comando de válvulas no cabeçote, alimentado por um carburador simples (há também a opção de dupla carburação).

O chassis e demais partes mecânicas são os mesmos do VW 1600.

Esse motor prejudica um pouco a capacidade de carga na caçamba, uma vez que chega a salientar-se no piso desta, mas tem a vantagem de apresentar uma faixa de torque mais constante, o que é excelente para um utilitário.

Além disso, como a carroceria de fibra de vidro pesa menos que a carroceria do próprio VW (o Formigão tem o peso total de 756 kg), o desempenho é bastante satisfatório. Tem boa arrancada e desenvolve velocidades razoáveis para um carro desse tipo.

Com esse motor, peso menor e melhor aerodinâmica que a picape Kombi – principalmente quando está com a caçamba coberta com a lona – o Formigão tem condições de ser mais econômico que o utilitário da Volkswagen.

Segundo seus fabricantes, o veículo pode fazer até 12 km/l na velocidade constante de 80 km/h, descarregado.

Além da economia e do desempenho, a picape Formigão apresenta outros pontos favoráveis. É um veículo bom e confortável, fazendo até com que o motorista se esqueça que está guiando uma picape.

O assento é reclinável pelo processo contínuo e a direção esportiva, de diâmetro pequeno e boa empunhadura, é precisa e forma bom conjunto de pilotagem com o assento e a alavanca de câmbio (a mesma do VW).

O único ponto negativo do volante é o fato de cobrir completamente a leitura do marcador de gasolina e, em parte, do velocímetro. Se o diâmetro fosse um pouco maior isso não aconteceria.

Como é um veículo destinado a duas pessoas, o espaço interno para os ocupantes é suficiente.

O carro que dirigimos estava com a suspensão mais rebaixada que a original, por preferência do proprietário e sua estética melhora dessa maneira, embora apresente inúmeras desvantagens práticas, principalmente quando se roda em pisos irregulares.

No entanto, na construção da picape Formigão, a suspensão original não é alterada apresentando uma melhora mínima do solo.

Outro dos pontos negativos do carro diz respeito ao mecanismo que aciona os vidros das portas quando estas estão fechadas. É que a maçaneta, ao ser virada, quase esbarra na ponta do painel provocando ferimentos nas mãos do motorista ou acompanhante.

Este problema, no entanto, já foi solucionado nos carros que estão sendo construídos, com a colocação da maçaneta um pouco mais para trás, no forro da porta. E o vidro das portas mesmo quando totalmente abaixado ainda fica cerca de 3 cm acima da posição ideal.

Isto ainda não foi resolvido pelo fabricante porque depende do fornecedor de vidros fabricar um adequado especialmente a esse modelo de carro.

Segurança
(Acervo/Quatro Rodas)

Quanto à segurança, cabe ressaltar a boa estabilidade que este utilitário apresenta, apesar de uma pequena tendência a sair de traseira quando se entra no limite máximo de aderência de uma curva.

Mas de modo geral sente-se boa segurança pilotando o veículo.

Os freios são eficientes e, mesmo nas freadas mais bruscas, o carro não muda de trajetória. O espelho retrovisor tem boa visibilidade, ocorrendo o mesmo com os dois espelhos laterais.

Conclusão
Este novo modelo, uma vez lançado no mercado, poderá ser de muita serventia pois é quase um carro normal com características de utilitário, graças à boa capacidade de carga de sua caçamba (650 kg).

Os detalhes de sua carroceria foram bem cuidados e a sua aparência, embora estranha à primeira vista, torna-se agradável com o decorrer do tempo.

Certamente existe mercado para este tipo de veículo, que leva diversas vantagens sobre os seus similares, entre estas as de não sofrer corrosão, ser mais versátil, mais leve e mais econômico.

O único ponto que nos deixa em dúvida quanto à sua aceitação é justamente o preço (Cr$ 135.578,00), que, em nossa opinião, é elevado.

Ficha técnica
Motor – Traseiro, de quatro cilindros contrapostos dois a dois, horizontal, quatro tempos, refrigerado a ar, diâmetro e curso dos cilindros de 85,5 x 69 mm; 1.584 cm3 de cilindrada, taxa de compressão de 7,2:1; potência máxima de 58 cv SAE a 4.400 rpm, torque máximo de de 11,2 mkgf a 2.600 rpm, comando de válvulas nos cabeçotes, alimentado por um carburador simples de fluxo descendente de 30 mm; gasolina indicada: comum (amarela).

Transmissão – Embreagem monodisco a seco de acionamento mecânico; câmbio de quatro marchas sincronizadas para a frente e ré, com alavanca de mudanças no assoalho; relações: 1a) 3,80:1; 2a) 2,06:1; 3a) 1,32:1; 4a) 0,89:1; ré 3,88:1; relação do diferencial: 4.125:1; tração traseira.

Carroceria, chassi – Carroceria de fibra de vidro, picape, duas portas, dois lugares, chassi em plataforma de aço com túnel central de reforço.

Suspensão – Dianteira: do tipo independente, com barras de torção em feixes longitudinais, amortecedores hidráulicos telescópicos e barra estabilizadora; traseira: do tipo independente, de semi-eixos oscilantes com barras de torção cilíndricas, amortecedores hidráulicos telescópicos e barra compensadora.

Freios – De acionamento hidráulico, a disco nas rodas dianteiras e a tambor nas traseiras; freio de estacionamento mecânico atuado nas rodas traseiras.

Direção – Mecânica, do tipo setor e rosca sem fim, com amortecedor telescópico hidráulico.

Rodas, pneus – Rodas de liga de antálio com aro de 13 polegadas, com tala de 6 na frente e de 7 polegadas atrás (opcionais); originais de aço estampado com aro de 14 polegadas e tala de 6 polegadas na frente e atrás; pneus 175/70 SR 13 na frente e 185/70 SR 13 atrás (opcionais); originais 5,90 x 14.

Dimensões – Comprimento total: 401 cm; largura: 165 cm; altura: 136 cm; distância entre-eixos: 240 cm; bitola dianteira: 132,6 cm; bitola traseira 136,5 cm; altura livre do solo: 19 cm.

Peso – 156 kg (segundo o fabricante).

Preço do carro testado – Cr$ 135.578,00.

Fonte: Quatro Rodas

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